quinta-feira, 23 de agosto de 2012
o indizível mora ao ladO
ainda paira no ar um sentimento de engasgo das coisas potenciais
e uma árvore geme o calor da tarde rota
é onde me seguro, é onde vive escuro, é onde morre o muro
pra onde vão todos esses seres sequenciais?
deve haver uma frabriquinha de similitudes
donde brotam igualdades satisfeitas, monocromismos
deve haver algum selo anti-recessividade, anti-antitético
o acaso parou no boteco, pediu uma água com gás
pôs-se a arrotar e pediu a conta da sede;
não satisfeito, sorriu para a garçonete
que entendeu: lugar de imprevisto é onde não se pede
{ dedicado ao meu recesso }
quinta-feira, 1 de março de 2012
tudo vem do vento vem tudO

[dedicado ao déjàvu do rompimento]
quinta-feira, 23 de junho de 2011
sinais vermelhos ultrapassadoS

quinta-feira, 24 de março de 2011
provavelmente vocÊ
que nasceu de pernas bambas
e não atinava em nada que cheirasse a dor
experimentou os inéditos óxidos ambientes
provavelmente
nas dobras de tuas sandálias
a malícia que a cor nunca denunciará
porque cor não pega nem solta
provavelmente
os soluços pronunciados na cama fria
pontuais como os desejos verossímeis
e ninguém soube de uma só lágrima
provavelmente
nem tampouco o maniqueísmo dos inocentes
pra aliviar o meu segredo umbilista
e pobre de mim que só sei de mim
provavelmente
amanhã que é dia de feira
e não se pode perder um só suspiro teu
sob pena de ganharmos um vírus letal
provavelmente
pela calçada amarelada de preguiça
esperando uma música da Gal
nunca se sabe quanto tempo leva
provavelmente
com quem uma vez mais falarei
de quem uma vez mais lembrarei
por quem uma vez mais viverei
provavelmente
ainda pior do que um esquecimento
a ferida miasmática da aporia
e quem saberá do meu papel?
provalvemente
escrevo pedindo perdão ao retrato
pelo dito, pelo não e pelo talvez
se não sei de onde vem a raiva
provavelmente
tudo me cheira a loucura
até tu, caminho bom de se deitar!
que me trouxe pêlos melaninosos
provavelmente
não sobrará muito de mim
e nós brincando de não ser nada
- me leva pra passear no teatro!
provavelmente
seja o começo do fim da fruição
e agora me penduro no invisível
flamulando nalgum frande
provavelmentevocê.

{ dedidado ao menino Quixote (que me partiu em três) }
quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011
vende-sE
quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011
imagimáriO
se há algo mais absurdo do que a própria idéia de brasilidade, é a personagem modernista esculpida por Mário de Andrade. e de tão absurda, simbólica; e de tão simbólica, refletida.
a preguiça, cujo hino literário foi arquitetado em 7 dias¹ (sendo um de ócio oficial), está rapsodicamente (por ser fruto do improviso folclórico) inscrita na obra modernista, porque foi naquelas décadas de 20 e 30 que o desenvolvimentismo brasileiro buscou modelos europeus, para construir o ideário nacional. os mais avisados sabem que Mário não escondia seu afeto pela "cidade maravilhosa", tendo retirado desse afeto as referências para o caráter brasileiro que se pretendia delinear sob a luz das influências vanguardistas. de tão afeito ao espírito despojado do povo tupiniquim, o escritor ousou desenhar uma personagem que encarnasse o famigerado dualismo trabalho-ócio. sugeriu o desajuste entre sociedade e homem folclórico, impetrou cuidado ao caracterizar o ofício de escritor (ou homem cultural) como situação mecânica, e até pregou que o comportamento sublinhado pela obra em questão era tipia de terrenos com climas como os daqui.
Mário não foi nem será o único a vacilar, quando o pleito é admitir os contornos desta nação. se ele não foi capaz de resistir à tentação da atividade arbitrária e avulsa, como poderíamos nós, no pós-revolução tecnológica, e contentes (e pouco conscientes) do zum-zum-zum da Semana de Arte, admitir sermos corpos dispostos à empreitada do projeto e da execução? não é com a Gal apelidando os bahianos de preguiçosos, que estes virão à forra (mesmo que a tropicalista seja tão bahiana quanto carioca). Mais adiante, o próprio Mário reconheceu a perdição que era aquela terra boêmia - "O Rio pra mim é um sonho e eu quase que me envergonho de você ter me obrigado a confessar isso”² -, reiterando a particular propensão ao erro de imaginar que o homem pode ser cindido entre a capacidade de produção intelectual e o envolvimento com a laboração planejada. num momento seguinte, o autor redireciona seu trabalho para o engajamento político-cultural nacionalista, pautado no chamamento à participação e à influência do coletivo.
é preciso tentar imaginar a figura do brasileiro como uma personagem instantânea, tradicionalmente ligada à idéia de futurismo (movimento que aliás norteou a atuação dos primeiros modernistas), em que não se pode perder o momento sublime, o mais recém-pós-pós, sob pena de desligar-se da mais gloriosa plenitude. o brasileiro é uma entidade (assim tratada como uma personagem andradina) sem técnica que lhe represente, exceto a de apostar nos feriados e nos jogos do bicho. de tão pós-moderna, paradoxalmente, esta entidade é perdida no que não tem sido, por preguiça de se satisfazer...
1 - Macunaíma foi escrita em uma semana, período em que Mário esteve "descansando" em Araraquara.
2- Em carta a Drummond, refletindo Macunaíma.
quinta-feira, 27 de janeiro de 2011
a rota do indivíduO
Essencialmente hoje, são dispensáveis quaisquer qualidades de invenção poética, devem reinar as obras-primas elaboradas pelo mestre-mor da música negra brasileira, diga-se Djavan. Foi este o espírito que mais me incitou a imaginação das coisas indizíveis. Cada pétala cadente da saudação que este homem fez aos deuses ultramarinos foi soprada aos polos mais remotos. E o som que se projeta é similar ao pulso firme de um coração aflito pelas dores que já experimentou e se vêem espelhadas na cor do abismo dos olhos de quem sente vontade. Há um caminho riscado na vereda dos sonhos semi-possíveis, e não foi por falta de aviso: é trilha perigosa a cauda do cometa do conhecimento. Que os nossos desejos apareçam como um prego que se bate na parede, ou se pendura o quadro da vida lá fora, ou fica o buraco sem sentido. Saudações aos indivíduos que carregam os sonhos nos trilhos, sacolejam e não descarrilham. Fica a homenagem do mestre.
Mera luz que invade a tarde cinzenta
E algumas folhas deitam sobre a estrada
O frio é o agasalho que esquenta
O coração gelado quando venta
Movendo a água abandonada
Restos de sonhos sobre um novo dia
Amores nos vagões, vagões nos trilhos
Parece que quem parte é a ferrovia
Que mesmo não te vendo te vigia
Como mãe, como mãe que dorme olhando os filhos
Com os olhos na estrada
E no mistério solitário da penugem
Vê-se a vida correndo, parada
Como se não existisse chegada
na tarde distante, ferrugem ou nada.
