quinta-feira, 20 de janeiro de 2011

sossegO (homenagem póstuma)

Eu sempre quis saber quando vc pararia de esnobar o próprio discurso; talvez porque eu temesse que, não dando afirmação à sua própria fala, vc também não recebesse bem a alheia. A menos que vc se torne um diretor sarcástico e metaforizador das palavras (ou imagens, no seu caso), vc precisa tomar mais cuidado com as antíteses aplicadas na sua fala; nem todo mundo recebe e/ou percebe eficientemente jogos de palavras ou permutas. Temos provas diárias, nas notícias da Tv, que um sintagma mal construído, e logo dispara um festival de "eu fui mal interpretado" ou "não foi o que eu quis dizer". Não que eu seja exemplo, mas é preciso, substancialmente na área das comunicações, ter certo talento na área da linguagem. Pelo muito pouco que conversamos, sei que vc tem um generoso poder de verbalização, mas eu ficaria mais feliz se sua vaidade fosse maior: escreva como quem está dando um presente; quanto mais mal do presente vc falar, mais desconfortável ficará o destinatário, para não dizer desmerecedor.

Mas já que vc perguntou, não estou muito bem não. E agora é uma dor diferente; porque antes eu oferecia por demais minha miserável amizade e/ou companhia a Vossa Senhoria, e Vossa Senhoria sempre senhor de sua indiferença; agora que ainda o preciso, embora com menos gula, Vossa Ascendência teima em desfazer as interseções; se bem que "para quem tem preguiça de escrever", e sendo este o quase exclusivo meio de comunicação, qualquer lugar seria "muito bom". A propósito, percebestes o sibilar dos sons dessas sentenças??? É quase como estou pensando; porque o pensamento também faz sons... Mas agora o som e o tom são sutis e silenciosos. Nada de raiva, ira ou tensão. Saudade, sim.

Só quero a sua saúde e seu sucesso, e seu sossego. O que se pode esperar de um ser com tantos ésses no nome.

Boa Semana!

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ps: antes, eu recomendava que escrevesse quando pudesse e quisesse, mas se já há preguiça, escreve quando puder e conseguir.



-----Mensagem original-----

De: **** ******* [mailto:jeffilmes@gmail.com]
Enviada em: segunda-feira, 25 de junho de 2007 19:42
Para: sr.beltrano@terra.com.br
Assunto: tá vivo?

que pergunta besta?
eu estou vivo, acho que a agente deve se encontrar no Orkut!
aparece por lá, pra quem tem preguiça de escrever é muito bom!
estou muito bem e gostaria que vc também tivesse muito bem!
muito bem!
um abraço!

quinta-feira, 6 de janeiro de 2011

o rabo entre as pernaS



Segundo Aristóteles, a comédia é imitação de uma ação possível (que hoje chamaríamos de ação imaginária); juntamente com as outras modalidades literárias, cuida daquilo que não ocorreu de fato mas poderia ter acontecido, estando mais perto das coisas universais, ao contrário da história e das demais ciências humanas, que tratariam do que realmente aconteceu e estão mais presas às coisas particulares. O autor também classificou a comédia como "imitação de homens inferiores... mas só quanto àquela parte do torpe que é ridículo."

Respeitada a indiferença perturbadora de Machado, peço desculpas ao finado pelo simulacro barato e, ao mesmo tempo, promovo a homenagem. Joaquinzim que vá tomar satisfações com o Ari...


A Borboleta Preta (Capítulo 31 - Memórias Póstumas de Brás Cubas - Machado de Assis)

No dia seguinte, como eu estivesse a preparar-me para descer, entrou no meu quarto uma borboleta, tão negra como a outra, e muito maior do que ela. Lembrou-me o caso da véspera, e ri-me; entrei logo a pensar na filha de Dona Eusébia, no susto que tivera e na dignidade que, apesar dele, soube conservar. A borboleta, depois de esvoaçar muito em torno de mim, pousou-me na testa. Sacudi-a, ela foi pousar na vidraça; e, porque eu sacudisse de novo, saiu dali e veio parar em cima de um velho retrato de meu pai. Era negra como a noite; e o gesto brando com que, uma vez posta, começou a mover as asas, tinha um certo ar escarninho, uma espécie de ironia mefistofélica, que me aborreceu muito. Dei de ombros, saí do quarto; mas tornando lá, minutos depois, e achando-a ainda no mesmo lugar, senti um repelão dos nervos, lancei mão de uma toalha, bati-lhe e ela caiu.

Não caiu morta; ainda torcia o corpo e movia as farpinhas da cabeça. Apiedei-me; tomei-a na palma da mão e fui depô-la no peitoril da janela. Era tarde; a infeliz expirou dentro de alguns segundos. Fiquei um pouco aborrecido, incomodado.

- Também por que diabo não era ela azul? disse eu comigo.

E esta reflexão - uma das mais profundas que se tem feito desde a invenção das borboletas - me consolou do malefício, e me reconciliou comigo mesmo. Deixei-me estar a contemplar o cadáver, com alguma simpatia, confesso. Imaginei que ela saíra do mato, almoçada e feliz. A manhã era linda. Veio por ali fora, modesta e negra, espairecendo as suas borboletices, sob a vasta cúpula de um céu azul, que é sempre azul, para todas as asas. Passa pela minha janela, entra e dá comigo. Suponho que nunca teria visto um homem; não sabia, portanto, o que era o homem; descreveu infinitas voltas em torno do meu corpo, e viu que me movia, que tinha olhos, braços, pernas, um ar divino, uma estatura colossal. Então disse consigo: "Este é provavelmente o inventor das borboletas". A idéia subjugou-a, aterrou-a; mas o medo, que é também sugestivo, insinuou-lhe que o melhor modo de agradar ao seu criador era beijá-lo na testa, e ela beijou-me na testa. Quando enxotada por mim, foi pousar na vidraça, viu dali o retrato de meu pai, e não é impossível que descobrisse meia verdade, a saber, que estava ali o pai do inventor das borboletas, e voou a pedir-lhe misericórdia.

Pois um golpe de toalha rematou a aventura. Não lhe valeu a imensidade azul, nem a alegria das flores, nem a pompa das folhas verdes, contra uma toalha de rosto, dois palmos de linho cru.

Vejam como é bom ser superior às borboletas! Porque, é justo dizê-lo, se ela fosse azul, ou cor de laranja, não teria mais segura a vida; não era impossível que eu a atravessasse com um alfinete, para recreio dos olhos. Não era. Esta última idéia restituiu-me a consolação; uni o dedo grande ao polegar, despedi um piparote e o cadáver caiu no jardim. Era tempo; aí vinham já as próvidas formigas… Não, volto à primeira idéia; creio que para ela era melhor ter nascido azul.


O Labigó Zombador (Capítulo Nenhum - Memórias Postas Debaixo da Blusa - Senhor Beltrano)

No dia seguinte, como eu tivesse a custar-me para sair, entrou no meu banheiro um labigó, tão zombador como o outro, e muito menor do que ele. Lembrou-me o acidente da véspera, e chorei; saí logo a pensar na menina da Dona Raimundinha, nos olhos que pusera, e na graça que, apesar deles, soube provocar. O labigó, depois de escorregar muito fugindo de mim, cagou-me no pé. Xinguei-o, ele foi parar no ralo; e, porque eu o xingasse de novo, pulou dali e veio parar em cima de um velho penico de minha tia. Era acizentado como o dia. A batida louca com que, uma vez besta, começou a sacudir a cabeça, tinha um certo ar infeliz, que me atusigou muito. Dei de sobrancelhas, saí do banheiro; mas voltando lá, segundos depois, e achando-o ainda no mesmo balançar, senti o encher da bexiga, abri mão de um cacete, mijei-o e ele boiou.

Não morreu afogado, ainda balançava a cabeça e esticava as perninhas. Aproximei-me; tomei-o do penico da titia e fui pendurá-lo na chave do basculante. Era tarde; o infeliz perdera o rabo dentro do penico. Fiquei um pouco arrependido, inconformado.

- Também por que diacho não era um rato? disse com o bicho.

E esta provocação - uma das mais corajosas que se tem feito, desde o surgimento dos gatos - me aliviou do prejuízo, e me atrasou no antigo emprego. Deixei-me estar a xingar o recém-anuro, com alguma melodia, confesso. Imaginei que ele fugira do gato, apressado e por um triz. A tarde era quente. Veio para cá para dentro, afobado e besta, esquecendo as suas lagartices, sob o pretexto de uma morte súbita, que é sempre súbita, para todas as garras. Passa pela minha canela, pula e caga em meu dedo. Suponho que nunca teria usado um vaso; não sabia, portanto, o que era o vaso; arranhou redondas vezes as paredes do penico, e viu que estava de pé, que falava, gritava, xingava, ria, um idiota total. Então disse consigo: "Este é provavelmente o dono do gato". A idéia confundiu-o, indignou-o; mas o medo, que era quase instintivo, demonstrou-lhe que a melhor forma de perder o rabo era para o dono da casa, e cagou-me no pé. Quando xingado por mim, foi parar no ralo, viu dali o penico de minha tia, e não é impossível que imaginasse meia felicidade, sem saber, que gostava dali a tia do dono do gato, e saltou para conseguir refúgio.

Pois um golpe de mijada levantou a levedura. Não lhe salvou a cauda solta, nem o frege da cabeça, nem as asas dos insetos de outrora, contra uma mira de olho, dois palmos de distante e um alvo.

Vejam como é bom ser superior aos labigós! Porque, é justo dizê-lo, se ele fosse um rato, ou um preá, não teria mais seguro o rabo; não era impossível que eu o levantasse pela cabeça para recreio do gato. Não era. Esta última idéia entregou-o à maldição; cobri os dedos para não melar, derreei todo o pote e o anuro caiu longe de mim. Era tempo; lá vinham já os promíscuos gatunos... Não, volto à primeira idéia, penso que para ele era melhor ter nascido rato.

quinta-feira, 30 de dezembro de 2010

alegoriA


entre uma sombra e outra do sol escaldante da vida lá fora, encontrei pernas dispostas a um passo maior e lábios úmidos de uma galáxia que nunca acabava de incitar o meu enleio. retorno ao vagão das minhas utopias e etiqueto carga por carga com o título: adimplência é uma arte, promessas não são sonhos, e felicidade mora em outra feliz cidade.

um brinde aos teus olhos orvalhados, menino Bravo! e avante...


quinta-feira, 16 de dezembro de 2010

passado de presentE


Sou um homem sem memória, portanto, um homem sem passado. É como se os fatos fossem quadros recém-roubados, nunca recuperados, somente com a idéia primeira despertada pelo contato; de sobra, nem mesmo o trauma da perda, só mesmo a propaganda do roubo. Outrora, valiam um pedaço do céu e uma fração da terra, agora, passou.

Pelas minhas contas, o ano durou bem mais que três centenas e meia de dias, durou a eternidade de uma dor de cabeça crônica, de um esquecer de si admirando uma paisagem desinteressante pelo quadrante da janela do coletivo, de uma viagem entre o veio de páginas do início de um livro coalhado de teorias sobre a linguagem, de passos descoordenados na fila do tristonho serviço de servir refeições no bandejão, de uma reflexão sobre o que fazer quando nada mais há o que fazer antes de um teste, de uma dúvida entre garimpar o conteúdo pornográfico da grande rede ou consultar a etimologia de algum lugar-comum, de uma saudade de um bom sexo praticado em recompensa ao ócio de um coração apagadinho, de uma ira tola despertada pela igualmente tola soberba de um cigarro que degrada, de um deleite advindo da prosperidade de uma amizade acidental, de um passeio pelo elevador com o perigo iminente da invasão de uma mente (por que calam? e o que calam?); enfim, o ano durou a eternidade de uma vontade de fugir da eternidade.

De um ano aerado de hiatos e esperas, filtrei que quanto mais pratico o que nasceu e se desenvolve comigo, mais sossego carrego em minhas pretensões. Foi um ano em que mastiguei por demais alguns comportamentos e, por fim, restou a ressaca. Para quem não tem um fígado saudável, qualquer porção de amargo é suplemento para continuar embebido no objetivo de dissolver a realidade.

Esquecendo-se um pouco a racionalidade, abusa-se de palavras pouco frutíferas e muito mais ilustrativas e supérfluas. Bom, fica esse como sendo o saldo.

quinta-feira, 9 de dezembro de 2010

lusco-fuscO

Fez-se dia à meia-noite, e o bicho que me consumia as víceras foi ladrar em outras selvas, ambientes de cactos, vidas severas, céu de azul estalando. Nem despediu-se, tendo o vento sido arrasador, de animar janelas, de anunciar tempestades.

- Pra quê? Pra que, Tufão, surpreender minhas vestes bem engomadas, de cores rupestres e embotadas de ânsia?

- Pra que, se o bicho nem era desta natureza e sim prole de amores interrompidos e áridos?

- Pra que, se o oceano de folhas secas e seixos soçobravam em ondas regulares, nanometricamente senoidais, encharcado de mal-me-queres?

Foi engano teu, Açoite, imaginar que me faria vacilante, que me forjaria em cal tenaz e involutiva, minando assim o meu caráter de encadeamento com outras criaturas. Já tu me sopravas cascalhos moídos em meus olhos lacrimosos; e era tudo turvo, em tudo uma carga de sombra, nada reluzia, pronto a me esculpir artificialmente inóspito e infértil. Inda mais surpreendente foi a anunciação de uma Figura, cuja silhueta se confundia com a de um portal entre o alumbramento e a indecisão. Não era um heroi, nem criatura fantástica, ou ainda espectro luminoso. Era físico, natural, orgânico; era humano. Em nada denunciava cultivar em si um bicho faminto similar ao meu. Mais parecia solver todo tipo de cólera bestial; por certo, aniquilou o Egoísmo gatuno em sua fuga...

quinta-feira, 2 de dezembro de 2010

a estadia do afagO


Tendo se antecipado aos sentimentos do mundo - inclusas as dores -, veio feito o sereno, como um tecido que abraça a noite, antropófaga. Os seres fervilhavam, aflitos, desdenharam de seu bailado elíptico, acharam tratar-se da paisagem de pavimentos recém-desenhados, tais quais asfaltos amorfos duradouros de um só verão, como abraços de um coração só. A começar pelos olhos, fugiam do breu, envernizados de um branco roubado do seringal dos sonhos dantescos; olhos nada severos, mas resilientes, divergem dos braços voluntariosos, audaciosos de buscarem segredos em minhas vértebras - (ahr!) os teus dedos nada misericordiosos... (ahr!). E no seu ventre se esconde o furor de uma primavera carnavalesca: é festa e o vinho tinge os nossos medos de lilás, ruboriza anjos caídos, desencaminha. Passam-se semanas e o meu sangue ainda tem cheiro das raízes do teu desejo laçadas em meus braços trêmulos. Caem sementes tuas no planalto dos meus pés aquecidos e brotam anéis siderais, mensageiros de um afeto que se desenha avesso à mentira, essa duna movediça. Toma e guarda o meu coração em teu juízo, afeto meu! O meu lar é também teu, e faz de mim a tua morada.
[o pensamento é tão sazonal...]

quinta-feira, 25 de fevereiro de 2010

o entregador de cartas


deixou-as cair no asfalto encardido e fervente
fraturou todas elas, desencaminhou-as
perderam-se não só as saudações
perderam-se as dívidas
e todas as confissões figurativas da linguagem para boi dormir...
(é tempo de não mais redigir)


* em honra do amigo-secreto Cizo