quarta-feira, 7 de setembro de 2016
queda livre
cada estrofe é um modelo
cada verso é um apelo
cada rima é um degelo
cada qual que goze em sê-lo
segunda-feira, 4 de julho de 2016
piada velha
quinta-feira, 28 de novembro de 2013
geográficO
os bêbados são os seres mais sublimes
cospem nas estrelas do Bilac
maceram a rosa do Drummond
de onde eu venho
não vem mais ninguém
ou porque perderam a amizade do rei
ou porque não sabem andar a pé
pr'onde vou
erguem-se pirâmides de saudades
boicotam-se os filhos naturais
apedrejam-se muros de ópio
pr'onde vou
não vai mais ninguém
ou porque havia uma pedra no caminho
ou porque eu sou o meio do fim
quinta-feira, 21 de novembro de 2013
pó de estrelA
quinta-feira, 14 de novembro de 2013
em tempestivO
peço, mamãe, que retome o fio da novidade
e redesenhe a figura do menino que nasceu pálido e sem exatidão
devolva as panelas aos armários e dispense os convidados
desminta o festival anunciado em dias de sábado por ocasião do natalício
arranque os cabelos brancos que você mesma me cedeu via sangue
e costure uma rede fresca e espalmada em que possa planejar invernos amenos
difame todas as companhias dele, sejam homens ou mulheres
canalhas ou putas
condes ou mademoiselles
para que nada nele seja perverso ou doirado demais
não demore em providenciar outro pai
que a história tem dado provas de que a tríade
o quarteto e outros múltiplos
vão bem combinados quando mais inclusivos que exclusivos
e este novo menino, mamãe, não ficaria nem camponês
nem cosmólatra demais
por favor, se lembre de dar novo colégio a este reprojeto
queime seus livros de poesia modernista
adote por conta própria abecedários com pinturas pontilhistas
que é pr'este neófito se divertir bem muito
cansar do furdunço e sonecar
e que se refaça em bom contador de sinceridades cheirosinhas
tenha ainda a bondade de fazer esta criatura acreditar ao menos no sideral
ensinando a desconfiar dos cantores mentirosos de não ligar pra amantes
evite chorar durante todo este processo
afim de que ele não reflita novamente sua doída propensão ao bem comum
à simpatia e ao amor aos homens de brilho formidável
por fim, mamãe, peço que solte a mão deste menino
que ele quer se dependurar no fio da poesia
e não ser mais ninguém
e não ser mais nada
além duma página em branco.
[o sabiá assobiou sabino!]
quinta-feira, 24 de outubro de 2013
alteridadE
São erguidos monumentos calcários, são moldadas parafernálias de cores férreas, são impregnadas pinturas retilíneas nas paredes e nas placas. Isso tudo vai enchendo a gente assim de questões, de modo que a gente passa mais tempo realocando as imagens anteriores e menos respondendo ao desejo premente das recentes.
Quando mini-mundo se encorpa a este ponto de dar medo de não saber mais onde ele termina, o que é que a gente faz com as coisas que são conhecidas e são ainda assim hiperatraentes? Dá uma vontade bendita de verter a presença das coisas íntimas e amadas em monumentos, parafernálias e pinturas do contra-fluxo da superveniência das coisas surgentes.
E digo mais, a inconveniência do texto é a mesma que a cidade me provoca: um objeto parado num canto da mente, observando os outros flutuarem no entorno, esperando uma colisão.
quinta-feira, 10 de outubro de 2013
cavernA
[dedicado ao futuro do meu pretérito]
quinta-feira, 24 de janeiro de 2013
é tardE
Usavam vestidos que lhes davam autoridade
Já de dia, aconteceu de uma realidade me ser serena
Espantei-me com a face do dia que caía
Anoiteceu!
quinta-feira, 27 de setembro de 2012
usucapiãO
foi embora no meu derradeiro sono.
levantei com um gosto amargo de amanhã
aquela cica que a lágrima rabisca
aquele dia a mais na semana que passou.
de dia, moram dois grilos na minha janela
pra dentro um grita 'dó', pra fora um chora 'si'.
é tanta música nessa casa
que eu nem sei mais cantar um fado
eu só sei ouvir
eu só sei pular com pernas de inseto, rápido.
se é noite, eu não choro
eu não choro mais tarde da noite
eu não rio mais cedo do dia.
mais cedo ou mais tarde, é um furto
é a tomada assombrada do diafragma
é um bicho que rói a ruga do rei da minha cidade natal.
quando li escrito que a parte que me cabe
não cabe mais naquele latifúndio,
foi a reforma sangrária mais párea de mim
que houve.
e que os novos inquilinos saibam muito bem
do mal das novas instalações.
e que os novos moradores nunca se esqueçam
de que o bom mito à casa torna (para renascer).
quinta-feira, 23 de agosto de 2012
o indizível mora ao ladO
ainda paira no ar um sentimento de engasgo das coisas potenciais
e uma árvore geme o calor da tarde rota
é onde me seguro, é onde vive escuro, é onde morre o muro
pra onde vão todos esses seres sequenciais?
deve haver uma frabriquinha de similitudes
donde brotam igualdades satisfeitas, monocromismos
deve haver algum selo anti-recessividade, anti-antitético
o acaso parou no boteco, pediu uma água com gás
pôs-se a arrotar e pediu a conta da sede;
não satisfeito, sorriu para a garçonete
que entendeu: lugar de imprevisto é onde não se pede
{ dedicado ao meu recesso }
quinta-feira, 1 de março de 2012
tudo vem do vento vem tudO

[dedicado ao déjàvu do rompimento]
quinta-feira, 23 de junho de 2011
sinais vermelhos ultrapassadoS

quinta-feira, 24 de março de 2011
provavelmente vocÊ
que nasceu de pernas bambas
e não atinava em nada que cheirasse a dor
experimentou os inéditos óxidos ambientes
provavelmente
nas dobras de tuas sandálias
a malícia que a cor nunca denunciará
porque cor não pega nem solta
provavelmente
os soluços pronunciados na cama fria
pontuais como os desejos verossímeis
e ninguém soube de uma só lágrima
provavelmente
nem tampouco o maniqueísmo dos inocentes
pra aliviar o meu segredo umbilista
e pobre de mim que só sei de mim
provavelmente
amanhã que é dia de feira
e não se pode perder um só suspiro teu
sob pena de ganharmos um vírus letal
provavelmente
pela calçada amarelada de preguiça
esperando uma música da Gal
nunca se sabe quanto tempo leva
provavelmente
com quem uma vez mais falarei
de quem uma vez mais lembrarei
por quem uma vez mais viverei
provavelmente
ainda pior do que um esquecimento
a ferida miasmática da aporia
e quem saberá do meu papel?
provalvemente
escrevo pedindo perdão ao retrato
pelo dito, pelo não e pelo talvez
se não sei de onde vem a raiva
provavelmente
tudo me cheira a loucura
até tu, caminho bom de se deitar!
que me trouxe pêlos melaninosos
provavelmente
não sobrará muito de mim
e nós brincando de não ser nada
- me leva pra passear no teatro!
provavelmente
seja o começo do fim da fruição
e agora me penduro no invisível
flamulando nalgum frande
provavelmentevocê.

{ dedidado ao menino Quixote (que me partiu em três) }
quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011
vende-sE
quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011
imagimáriO
se há algo mais absurdo do que a própria idéia de brasilidade, é a personagem modernista esculpida por Mário de Andrade. e de tão absurda, simbólica; e de tão simbólica, refletida.
a preguiça, cujo hino literário foi arquitetado em 7 dias¹ (sendo um de ócio oficial), está rapsodicamente (por ser fruto do improviso folclórico) inscrita na obra modernista, porque foi naquelas décadas de 20 e 30 que o desenvolvimentismo brasileiro buscou modelos europeus, para construir o ideário nacional. os mais avisados sabem que Mário não escondia seu afeto pela "cidade maravilhosa", tendo retirado desse afeto as referências para o caráter brasileiro que se pretendia delinear sob a luz das influências vanguardistas. de tão afeito ao espírito despojado do povo tupiniquim, o escritor ousou desenhar uma personagem que encarnasse o famigerado dualismo trabalho-ócio. sugeriu o desajuste entre sociedade e homem folclórico, impetrou cuidado ao caracterizar o ofício de escritor (ou homem cultural) como situação mecânica, e até pregou que o comportamento sublinhado pela obra em questão era tipia de terrenos com climas como os daqui.
Mário não foi nem será o único a vacilar, quando o pleito é admitir os contornos desta nação. se ele não foi capaz de resistir à tentação da atividade arbitrária e avulsa, como poderíamos nós, no pós-revolução tecnológica, e contentes (e pouco conscientes) do zum-zum-zum da Semana de Arte, admitir sermos corpos dispostos à empreitada do projeto e da execução? não é com a Gal apelidando os bahianos de preguiçosos, que estes virão à forra (mesmo que a tropicalista seja tão bahiana quanto carioca). Mais adiante, o próprio Mário reconheceu a perdição que era aquela terra boêmia - "O Rio pra mim é um sonho e eu quase que me envergonho de você ter me obrigado a confessar isso”² -, reiterando a particular propensão ao erro de imaginar que o homem pode ser cindido entre a capacidade de produção intelectual e o envolvimento com a laboração planejada. num momento seguinte, o autor redireciona seu trabalho para o engajamento político-cultural nacionalista, pautado no chamamento à participação e à influência do coletivo.
é preciso tentar imaginar a figura do brasileiro como uma personagem instantânea, tradicionalmente ligada à idéia de futurismo (movimento que aliás norteou a atuação dos primeiros modernistas), em que não se pode perder o momento sublime, o mais recém-pós-pós, sob pena de desligar-se da mais gloriosa plenitude. o brasileiro é uma entidade (assim tratada como uma personagem andradina) sem técnica que lhe represente, exceto a de apostar nos feriados e nos jogos do bicho. de tão pós-moderna, paradoxalmente, esta entidade é perdida no que não tem sido, por preguiça de se satisfazer...
1 - Macunaíma foi escrita em uma semana, período em que Mário esteve "descansando" em Araraquara.
2- Em carta a Drummond, refletindo Macunaíma.
quinta-feira, 27 de janeiro de 2011
a rota do indivíduO
Essencialmente hoje, são dispensáveis quaisquer qualidades de invenção poética, devem reinar as obras-primas elaboradas pelo mestre-mor da música negra brasileira, diga-se Djavan. Foi este o espírito que mais me incitou a imaginação das coisas indizíveis. Cada pétala cadente da saudação que este homem fez aos deuses ultramarinos foi soprada aos polos mais remotos. E o som que se projeta é similar ao pulso firme de um coração aflito pelas dores que já experimentou e se vêem espelhadas na cor do abismo dos olhos de quem sente vontade. Há um caminho riscado na vereda dos sonhos semi-possíveis, e não foi por falta de aviso: é trilha perigosa a cauda do cometa do conhecimento. Que os nossos desejos apareçam como um prego que se bate na parede, ou se pendura o quadro da vida lá fora, ou fica o buraco sem sentido. Saudações aos indivíduos que carregam os sonhos nos trilhos, sacolejam e não descarrilham. Fica a homenagem do mestre.
Mera luz que invade a tarde cinzenta
E algumas folhas deitam sobre a estrada
O frio é o agasalho que esquenta
O coração gelado quando venta
Movendo a água abandonada
Restos de sonhos sobre um novo dia
Amores nos vagões, vagões nos trilhos
Parece que quem parte é a ferrovia
Que mesmo não te vendo te vigia
Como mãe, como mãe que dorme olhando os filhos
Com os olhos na estrada
E no mistério solitário da penugem
Vê-se a vida correndo, parada
Como se não existisse chegada
na tarde distante, ferrugem ou nada.
quinta-feira, 20 de janeiro de 2011
sossegO (homenagem póstuma)
Mas já que vc perguntou, não estou muito bem não. E agora é uma dor diferente; porque antes eu oferecia por demais minha miserável amizade e/ou companhia a Vossa Senhoria, e Vossa Senhoria sempre senhor de sua indiferença; agora que ainda o preciso, embora com menos gula, Vossa Ascendência teima em desfazer as interseções; se bem que "para quem tem preguiça de escrever", e sendo este o quase exclusivo meio de comunicação, qualquer lugar seria "muito bom". A propósito, percebestes o sibilar dos sons dessas sentenças??? É quase como estou pensando; porque o pensamento também faz sons... Mas agora o som e o tom são sutis e silenciosos. Nada de raiva, ira ou tensão. Saudade, sim.
Só quero a sua saúde e seu sucesso, e seu sossego. O que se pode esperar de um ser com tantos ésses no nome.
Boa Semana!
******** ******
ps: antes, eu recomendava que escrevesse quando pudesse e quisesse, mas se já há preguiça, escreve quando puder e conseguir.

-----Mensagem original-----
De: **** ******* [mailto:jeffilmes@gmail.com]
Enviada em: segunda-feira, 25 de junho de 2007 19:42
Para: sr.beltrano@terra.com.br
Assunto: tá vivo?
que pergunta besta?
eu estou vivo, acho que a agente deve se encontrar no Orkut!
aparece por lá, pra quem tem preguiça de escrever é muito bom!
estou muito bem e gostaria que vc também tivesse muito bem!
muito bem!
um abraço!
quinta-feira, 6 de janeiro de 2011
o rabo entre as pernaS

Segundo Aristóteles, a comédia é imitação de uma ação possível (que hoje chamaríamos de ação imaginária); juntamente com as outras modalidades literárias, cuida daquilo que não ocorreu de fato mas poderia ter acontecido, estando mais perto das coisas universais, ao contrário da história e das demais ciências humanas, que tratariam do que realmente aconteceu e estão mais presas às coisas particulares. O autor também classificou a comédia como "imitação de homens inferiores... mas só quanto àquela parte do torpe que é ridículo."
Respeitada a indiferença perturbadora de Machado, peço desculpas ao finado pelo simulacro barato e, ao mesmo tempo, promovo a homenagem. Joaquinzim que vá tomar satisfações com o Ari...
A Borboleta Preta (Capítulo 31 - Memórias Póstumas de Brás Cubas - Machado de Assis)
No dia seguinte, como eu estivesse a preparar-me para descer, entrou no meu quarto uma borboleta, tão negra como a outra, e muito maior do que ela. Lembrou-me o caso da véspera, e ri-me; entrei logo a pensar na filha de Dona Eusébia, no susto que tivera e na dignidade que, apesar dele, soube conservar. A borboleta, depois de esvoaçar muito em torno de mim, pousou-me na testa. Sacudi-a, ela foi pousar na vidraça; e, porque eu sacudisse de novo, saiu dali e veio parar em cima de um velho retrato de meu pai. Era negra como a noite; e o gesto brando com que, uma vez posta, começou a mover as asas, tinha um certo ar escarninho, uma espécie de ironia mefistofélica, que me aborreceu muito. Dei de ombros, saí do quarto; mas tornando lá, minutos depois, e achando-a ainda no mesmo lugar, senti um repelão dos nervos, lancei mão de uma toalha, bati-lhe e ela caiu.
Não caiu morta; ainda torcia o corpo e movia as farpinhas da cabeça. Apiedei-me; tomei-a na palma da mão e fui depô-la no peitoril da janela. Era tarde; a infeliz expirou dentro de alguns segundos. Fiquei um pouco aborrecido, incomodado.
- Também por que diabo não era ela azul? disse eu comigo.
E esta reflexão - uma das mais profundas que se tem feito desde a invenção das borboletas - me consolou do malefício, e me reconciliou comigo mesmo. Deixei-me estar a contemplar o cadáver, com alguma simpatia, confesso. Imaginei que ela saíra do mato, almoçada e feliz. A manhã era linda. Veio por ali fora, modesta e negra, espairecendo as suas borboletices, sob a vasta cúpula de um céu azul, que é sempre azul, para todas as asas. Passa pela minha janela, entra e dá comigo. Suponho que nunca teria visto um homem; não sabia, portanto, o que era o homem; descreveu infinitas voltas em torno do meu corpo, e viu que me movia, que tinha olhos, braços, pernas, um ar divino, uma estatura colossal. Então disse consigo: "Este é provavelmente o inventor das borboletas". A idéia subjugou-a, aterrou-a; mas o medo, que é também sugestivo, insinuou-lhe que o melhor modo de agradar ao seu criador era beijá-lo na testa, e ela beijou-me na testa. Quando enxotada por mim, foi pousar na vidraça, viu dali o retrato de meu pai, e não é impossível que descobrisse meia verdade, a saber, que estava ali o pai do inventor das borboletas, e voou a pedir-lhe misericórdia.
Pois um golpe de toalha rematou a aventura. Não lhe valeu a imensidade azul, nem a alegria das flores, nem a pompa das folhas verdes, contra uma toalha de rosto, dois palmos de linho cru.
Vejam como é bom ser superior às borboletas! Porque, é justo dizê-lo, se ela fosse azul, ou cor de laranja, não teria mais segura a vida; não era impossível que eu a atravessasse com um alfinete, para recreio dos olhos. Não era. Esta última idéia restituiu-me a consolação; uni o dedo grande ao polegar, despedi um piparote e o cadáver caiu no jardim. Era tempo; aí vinham já as próvidas formigas… Não, volto à primeira idéia; creio que para ela era melhor ter nascido azul.
O Labigó Zombador (Capítulo Nenhum - Memórias Postas Debaixo da Blusa - Senhor Beltrano)
No dia seguinte, como eu tivesse a custar-me para sair, entrou no meu banheiro um labigó, tão zombador como o outro, e muito menor do que ele. Lembrou-me o acidente da véspera, e chorei; saí logo a pensar na menina da Dona Raimundinha, nos olhos que pusera, e na graça que, apesar deles, soube provocar. O labigó, depois de escorregar muito fugindo de mim, cagou-me no pé. Xinguei-o, ele foi parar no ralo; e, porque eu o xingasse de novo, pulou dali e veio parar em cima de um velho penico de minha tia. Era acizentado como o dia. A batida louca com que, uma vez besta, começou a sacudir a cabeça, tinha um certo ar infeliz, que me atusigou muito. Dei de sobrancelhas, saí do banheiro; mas voltando lá, segundos depois, e achando-o ainda no mesmo balançar, senti o encher da bexiga, abri mão de um cacete, mijei-o e ele boiou.
Não morreu afogado, ainda balançava a cabeça e esticava as perninhas. Aproximei-me; tomei-o do penico da titia e fui pendurá-lo na chave do basculante. Era tarde; o infeliz perdera o rabo dentro do penico. Fiquei um pouco arrependido, inconformado.
- Também por que diacho não era um rato? disse com o bicho.
E esta provocação - uma das mais corajosas que se tem feito, desde o surgimento dos gatos - me aliviou do prejuízo, e me atrasou no antigo emprego. Deixei-me estar a xingar o recém-anuro, com alguma melodia, confesso. Imaginei que ele fugira do gato, apressado e por um triz. A tarde era quente. Veio para cá para dentro, afobado e besta, esquecendo as suas lagartices, sob o pretexto de uma morte súbita, que é sempre súbita, para todas as garras. Passa pela minha canela, pula e caga em meu dedo. Suponho que nunca teria usado um vaso; não sabia, portanto, o que era o vaso; arranhou redondas vezes as paredes do penico, e viu que estava de pé, que falava, gritava, xingava, ria, um idiota total. Então disse consigo: "Este é provavelmente o dono do gato". A idéia confundiu-o, indignou-o; mas o medo, que era quase instintivo, demonstrou-lhe que a melhor forma de perder o rabo era para o dono da casa, e cagou-me no pé. Quando xingado por mim, foi parar no ralo, viu dali o penico de minha tia, e não é impossível que imaginasse meia felicidade, sem saber, que gostava dali a tia do dono do gato, e saltou para conseguir refúgio.
Pois um golpe de mijada levantou a levedura. Não lhe salvou a cauda solta, nem o frege da cabeça, nem as asas dos insetos de outrora, contra uma mira de olho, dois palmos de distante e um alvo.
Vejam como é bom ser superior aos labigós! Porque, é justo dizê-lo, se ele fosse um rato, ou um preá, não teria mais seguro o rabo; não era impossível que eu o levantasse pela cabeça para recreio do gato. Não era. Esta última idéia entregou-o à maldição; cobri os dedos para não melar, derreei todo o pote e o anuro caiu longe de mim. Era tempo; lá vinham já os promíscuos gatunos... Não, volto à primeira idéia, penso que para ele era melhor ter nascido rato.
quinta-feira, 30 de dezembro de 2010
alegoriA

entre uma sombra e outra do sol escaldante da vida lá fora, encontrei pernas dispostas a um passo maior e lábios úmidos de uma galáxia que nunca acabava de incitar o meu enleio. retorno ao vagão das minhas utopias e etiqueto carga por carga com o título: adimplência é uma arte, promessas não são sonhos, e felicidade mora em outra feliz cidade.
um brinde aos teus olhos orvalhados, menino Bravo! e avante...
quinta-feira, 16 de dezembro de 2010
passado de presentE

Sou um homem sem memória, portanto, um homem sem passado. É como se os fatos fossem quadros recém-roubados, nunca recuperados, somente com a idéia primeira despertada pelo contato; de sobra, nem mesmo o trauma da perda, só mesmo a propaganda do roubo. Outrora, valiam um pedaço do céu e uma fração da terra, agora, passou.
Pelas minhas contas, o ano durou bem mais que três centenas e meia de dias, durou a eternidade de uma dor de cabeça crônica, de um esquecer de si admirando uma paisagem desinteressante pelo quadrante da janela do coletivo, de uma viagem entre o veio de páginas do início de um livro coalhado de teorias sobre a linguagem, de passos descoordenados na fila do tristonho serviço de servir refeições no bandejão, de uma reflexão sobre o que fazer quando nada mais há o que fazer antes de um teste, de uma dúvida entre garimpar o conteúdo pornográfico da grande rede ou consultar a etimologia de algum lugar-comum, de uma saudade de um bom sexo praticado em recompensa ao ócio de um coração apagadinho, de uma ira tola despertada pela igualmente tola soberba de um cigarro que degrada, de um deleite advindo da prosperidade de uma amizade acidental, de um passeio pelo elevador com o perigo iminente da invasão de uma mente (por que calam? e o que calam?); enfim, o ano durou a eternidade de uma vontade de fugir da eternidade.
De um ano aerado de hiatos e esperas, filtrei que quanto mais pratico o que nasceu e se desenvolve comigo, mais sossego carrego em minhas pretensões. Foi um ano em que mastiguei por demais alguns comportamentos e, por fim, restou a ressaca. Para quem não tem um fígado saudável, qualquer porção de amargo é suplemento para continuar embebido no objetivo de dissolver a realidade.
Esquecendo-se um pouco a racionalidade, abusa-se de palavras pouco frutíferas e muito mais ilustrativas e supérfluas. Bom, fica esse como sendo o saldo.









