quarta-feira, 7 de setembro de 2016

queda livre

o poema é uma cadência
cada estrofe é um modelo
cada verso é um apelo
cada rima é um degelo
cada qual que goze em sê-lo

segunda-feira, 4 de julho de 2016

piada velha

Considero quase sempre misteriosas as gargalhadas de uma pessoa, independente de sua excentricidade. Há no riso um trabalho árduo de significação, entretanto é ainda mais rápido rir do que pensar (os espontâneos que nos contem as armadilhas do escárnio). Não me orgulho de ter dois risos: um íntimo e um social; mas me admiro de eles não me traírem com tanta constância. Social é aquilo que a gente dispensa aos colegas, como se dá um "bom dia", não é bom errar o horário nem o tom nem a frequência; fica manjado, marcado, maçante, nada elegante; íntimo é aquilo que vem dos desejos mais egocêntricos, é a vontade incontrolável de saciar a vontade, é o contramaré, é o perder as pernas, é o errar na mão, é irremediável, é o impagável, é o quase perder os amigos não fosse os amigos saberem que aquilo é raridade! Escárnio. Foi citado, mas fica aqui sendo o primo sem limites, aquele em quem pôr a culpa por toda a desgraça alheia. É intuitivo saber que escárnio tem a ver com ferida, mas o que seria das confissões (e portanto das sinceridades) não fossem as feridas expostas? Somos iguaizinhos no rir, só tem gente que é mais felicidade que riso em si. Rir menor quem ri por fútil.
 

quinta-feira, 28 de novembro de 2013

geográficO

de onde eu venho
os bêbados são os seres mais sublimes

cospem nas estrelas do Bilac

maceram a rosa do Drummond


de onde eu venho

não vem mais ninguém

ou porque perderam a amizade do rei

ou porque não sabem andar a pé


pr'onde vou

erguem-se pirâmides de saudades

boicotam-se os filhos naturais

apedrejam-se muros de ópio


pr'onde vou

não vai mais ninguém

ou porque havia uma pedra no caminho

ou porque eu sou o meio do fim




quinta-feira, 21 de novembro de 2013

pó de estrelA

Todo homem carrega uma pedra no bolso dos seus pesares. Pra alguns a pedra é de um peso crucificante, pra outros a pedra é fundamental, pra alguns outros a pedra é o contrapeso de toda sorte de encantamento que a vivência promove. Porque me parece que uma pedra é sinal ou signo de uma coisa muito primeira, para não dizer primitiva. Quando ainda não são pedras polidas ou lapidadas, elas resumem a conjunção de substâncias que se aglomeraram pelo peso dos anos, pela afinidade da liga, pela inquietação do ambiente. Um homem não deve amaldiçoar sua pedra, mas o contrário acontece com muita naturalidade. Depois de reconhecida e aceita a sua pedra, um homem deve fazer dela poeira de seu tempo, reflexo de seus impasses, apontamento de suas dores. Não há homens sem dores, impasses ou atribulações; há homens que não sabem onde carregam suas pedras, não sabem de sua massa, pensam que pedra é só peso, deixam as pedras para os poetas. Sábio é o homem que assume a sua, que não anda com sete delas nas mãos, que não a arremessa nos bolsos alheios. Por mais descartável que pareça ser um pedregulho qualquer, lembremos que ele é a herança de vidas cheias de bolsos, cheias de pesares; largos ou vazios, amargos ou macios.


quinta-feira, 14 de novembro de 2013

em tempestivO

















peço, mamãe, que retome o fio da novidade
e redesenhe a figura do menino que nasceu pálido e sem exatidão

devolva as panelas aos armários e dispense os convidados

desminta o festival anunciado em dias de sábado por ocasião do natalício

arranque os cabelos brancos que você mesma me cedeu via sangue

e costure uma rede fresca e espalmada em que possa planejar invernos amenos

difame todas as companhias dele, sejam homens ou mulheres

canalhas ou putas

condes ou mademoiselles

para que nada nele seja perverso ou doirado demais

não demore em providenciar outro pai

que a história tem dado provas de que a tríade

o quarteto e outros múltiplos

vão bem combinados quando mais inclusivos que exclusivos

e este novo menino, mamãe, não ficaria nem camponês

nem cosmólatra demais

por favor, se lembre de dar novo colégio a este reprojeto

queime seus livros de poesia modernista

adote por conta própria abecedários com pinturas pontilhistas

que é pr'este neófito se divertir bem muito

cansar do furdunço e sonecar

e que se refaça em bom contador de sinceridades cheirosinhas

tenha ainda a bondade de fazer esta criatura acreditar ao menos no sideral

ensinando a desconfiar dos cantores mentirosos de não ligar pra amantes

evite chorar durante todo este processo

afim de que ele não reflita novamente sua doída propensão ao bem comum

à simpatia e ao amor aos homens de brilho formidável

por fim, mamãe, peço que solte a mão deste menino

que ele quer se dependurar no fio da poesia

e não ser mais ninguém

e não ser mais nada

além duma página em branco.

 

 [o sabiá assobiou sabino!]

quinta-feira, 24 de outubro de 2013

alteridadE

A cidade inteira é um arsenal de instigações.

São erguidos monumentos calcários, são moldadas parafernálias de cores férreas, são impregnadas pinturas retilíneas nas paredes e nas placas. Isso tudo vai enchendo a gente assim de questões, de modo que a gente passa mais tempo realocando as imagens anteriores e menos respondendo ao desejo premente das recentes.

Quando mini-mundo se encorpa a este ponto de dar medo de não saber mais onde ele termina, o que é que a gente faz com as coisas que são conhecidas e são ainda assim hiperatraentes? Dá uma vontade bendita de verter a presença das coisas íntimas e amadas em monumentos, parafernálias e pinturas do contra-fluxo da superveniência das coisas surgentes.

E digo mais, a inconveniência do texto é a mesma que a cidade me provoca: um objeto parado num canto da mente, observando os outros flutuarem no entorno, esperando uma colisão.


quinta-feira, 10 de outubro de 2013

cavernA

Desenvolveu-se em mim, repentinamente, uma vontade ardida de saudar o mistério da noite com seus pingos silvestres. As gotas evitavam o meu rosto, como os próprios olhos evitavam enxergar as coisas molhadas do meio da rua. As pupilas dilatavam-se, expulsando a preguiça de viver no banho-maria do sono perdido (e do sonho vencido). Foi na véspera disso que esqueci completamente de me perder nas fissuras do dia, lá quando o sol se enrola no algodão da nuvem cinza e finge que não volta mais. O sol tem o fingir mais mal dissimulado que eu já presenciei, dá pra saber direitinho quando ele não quer conversa alguma, dá pra saber até bem se há algum ensaio de eclipse na minha alma. Porque o sol nunca vai dar conta de ser tão funesto como a noite, porque o sol não sabe se despedir chorando e enxugando o choro com lenço argênteo. A noite é o princípio de qualquer umidade!

[dedicado ao futuro do meu pretérito]

quinta-feira, 24 de janeiro de 2013

é tardE


Essa noite, aconteceu em mim um sonho perturbador.
Encarei homens de face abrupta
Homens que não souberam decifrar qualquer enigma
Homens que nem sabiam que enigmas existiam.

Usavam vestidos que lhes davam autoridade
E nada perguntaram sobre a cor da coisas vivas
Nem sabiam que perguntas existiam.

Já de dia, aconteceu de uma realidade me ser serena

Espantei-me com a face do dia que caía
E com a existência da face de um só homem
Solícito, solicitado
Homem que soube me verter simples, descomplicado
Nem sabia que eu sabia que perguntas persistiriam.

Anoiteceu!


quinta-feira, 27 de setembro de 2012

usucapiãO

havia uma criança morando na minha janela
foi embora no meu derradeiro sono.
levantei com um gosto amargo de amanhã
aquela cica que a lágrima rabisca
aquele dia a mais na semana que passou.

de dia, moram dois grilos na minha janela
pra dentro um grita 'dó', pra fora um chora 'si'.
é tanta música nessa casa
que eu nem sei mais cantar um fado
eu só sei ouvir
eu só sei pular com pernas de inseto, rápido.

se é noite, eu não choro
eu não choro mais tarde da noite
eu não rio mais cedo do dia.
mais cedo ou mais tarde, é um furto
é a tomada assombrada do diafragma
é um bicho que rói a ruga do rei da minha cidade natal.

quando li escrito que a parte que me cabe
não cabe mais naquele latifúndio,
foi a reforma sangrária mais párea de mim
que houve.
e que os novos inquilinos saibam muito bem
do mal das novas instalações.
e que os novos moradores nunca se esqueçam
de que o bom mito à casa torna (para renascer).


quinta-feira, 23 de agosto de 2012

o indizível mora ao ladO


ainda paira no ar um sentimento de engasgo das coisas potenciais
e uma árvore geme o calor da tarde rota
é onde me seguro, é onde vive escuro, é onde morre o muro

pra onde vão todos esses seres sequenciais?
deve haver uma frabriquinha de similitudes
donde brotam igualdades satisfeitas, monocromismos
deve haver algum selo anti-recessividade, anti-antitético

o acaso parou no boteco, pediu uma água com gás
pôs-se a arrotar e pediu a conta da sede;
não satisfeito, sorriu para a garçonete
que entendeu: lugar de imprevisto é onde não se pede


{ dedicado ao meu recesso }



quinta-feira, 1 de março de 2012

tudo vem do vento vem tudO














meu último suspiro explodiu na tua nuca, e não houve porta corta-fogo que isolasse os lampejos daquela transição. foi você que soltou da minha mão, soltou sim, que senti grosso vento gélido lambendo os meus pés, abrindo os meus tímpanos, encrespando as minhas sobrancelhas. ouvi do terreno barulhos mecânicos irritadores da celeuma semanal, dancei tangos militares, levei empurrões, arrancaram-me a banda. e aquilo tudo deslizava para um não-sei-quê curioso, em que atuavam a minha saudade e a minha angústia, donde vinha poeira besta, para dissimular o acende e apaga dos dias e das noites. nisso se passou para lá de uma centena de semanas, às vezes desenterravam-se décadas, estas vinham cheirosas a vontades de infância, dissolviam os meus dedos, de modo que tudo ou era o pincel ou era a pintura. nem saudade da Aurora nem de Pasárgada, estanquei lágrimas de Portugal, destratei anjos tortos até me endireitar.

[dedicado ao déjàvu do rompimento]

quinta-feira, 23 de junho de 2011

sinais vermelhos ultrapassadoS

sismógrafos pararam, não registraram
etnólogos lamentaram, não encontraram
e passou como fosse pedestre sem dúvidas
faixas e feixes de extrema negritude turvaram a dança
lágrimas sopradas chapisco em mãos sobre-impostas
era monstro pluridáctilo inesgotável

arrancou-me a sopa, por pouco o sopro
perturbou o lago aparente de distonia
e não havia quem acudisse com boa fiança;
era o princípio da fusão lancinante
da desilusão do afeto escarafunchado
e foi pra longe meu juízo;
não faz sentido, não faz um fio de ventura

é insanidade de mármore pálido e inerte
é reticência intermitente
é toda sorte de abalo neural
e nunca acena sem me arrancar um uivo
me dá uma folga de mim, bicho-perturbação!
me deixa esparramado nos braços da tarde!
me espera no fim do trilho!
que prometo te levar bibelôs cheios de lustro,
prometo meus dentes cheios de sentido
prometo ainda meus ombros dissimulados

mas vai te embora como se farol aberto!
atrapalhar os maus condutores
ludibriar os infiéis
admirar vidas positivistas
esquece a minha, que só tem essa chance
que não sabe onde pisa e nem a quem toca
prometo-te uma última oferta:

enviar minh'alma à mais equidistante posta restante.

quinta-feira, 24 de março de 2011

provavelmente vocÊ

provavelmente
que nasceu de pernas bambas
e não atinava em nada que cheirasse a dor
experimentou os inéditos óxidos ambientes

provavelmente
nas dobras de tuas sandálias
a malícia que a cor nunca denunciará
porque cor não pega nem solta

provavelmente
os soluços pronunciados na cama fria
pontuais como os desejos verossímeis
e ninguém soube de uma só lágrima

provavelmente
nem tampouco o maniqueísmo dos inocentes
pra aliviar o meu segredo umbilista
e pobre de mim que só sei de mim

provavelmente
amanhã que é dia de feira
e não se pode perder um só suspiro teu
sob pena de ganharmos um vírus letal

provavelmente
pela calçada amarelada de preguiça
esperando uma música da Gal
nunca se sabe quanto tempo leva

provavelmente
com quem uma vez mais falarei
de quem uma vez mais lembrarei
por quem uma vez mais viverei

provavelmente
ainda pior do que um esquecimento
a ferida miasmática da aporia
e quem saberá do meu papel?

provalvemente
escrevo pedindo perdão ao retrato
pelo dito, pelo não e pelo talvez
se não sei de onde vem a raiva

provavelmente
tudo me cheira a loucura
até tu, caminho bom de se deitar!
que me trouxe pêlos melaninosos

provavelmente
não sobrará muito de mim
e nós brincando de não ser nada
- me leva pra passear no teatro!

provavelmente
seja o começo do fim da fruição
e agora me penduro no invisível
flamulando nalgum frande

provavelmentevocê.










{ dedidado ao menino Quixote (que me partiu em três) }

quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011

vende-sE


vem de si
uma esperança de que nenhum movimento
seja mais brusco
que o movimento do meu braço
indo ao peito conferir a marola
do coração
em suspiros de um choro emergencial


quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011

imagimáriO

se há algo mais absurdo do que a própria idéia de brasilidade, é a personagem modernista esculpida por Mário de Andrade. e de tão absurda, simbólica; e de tão simbólica, refletida.

a preguiça, cujo hino literário foi arquitetado em 7 dias¹ (sendo um de ócio oficial), está rapsodicamente (por ser fruto do improviso folclórico) inscrita na obra modernista, porque foi naquelas décadas de 20 e 30 que o desenvolvimentismo brasileiro buscou modelos europeus, para construir o ideário nacional. os mais avisados sabem que Mário não escondia seu afeto pela "cidade maravilhosa", tendo retirado desse afeto as referências para o caráter brasileiro que se pretendia delinear sob a luz das influências vanguardistas. de tão afeito ao espírito despojado do povo tupiniquim, o escritor ousou desenhar uma personagem que encarnasse o famigerado dualismo trabalho-ócio. sugeriu o desajuste entre sociedade e homem folclórico, impetrou cuidado ao caracterizar o ofício de escritor (ou homem cultural) como situação mecânica, e até pregou que o comportamento sublinhado pela obra em questão era tipia de terrenos com climas como os daqui.

Mário não foi nem será o único a vacilar, quando o pleito é admitir os contornos desta nação. se ele não foi capaz de resistir à tentação da atividade arbitrária e avulsa, como poderíamos nós, no pós-revolução tecnológica, e contentes (e pouco conscientes) do zum-zum-zum da Semana de Arte, admitir sermos corpos dispostos à empreitada do projeto e da execução? não é com a Gal apelidando os bahianos de preguiçosos, que estes virão à forra (mesmo que a tropicalista seja tão bahiana quanto carioca). Mais adiante, o próprio Mário reconheceu a perdição que era aquela terra boêmia - "O Rio pra mim é um sonho e eu quase que me envergonho de você ter me obrigado a confessar isso”² -, reiterando a particular propensão ao erro de imaginar que o homem pode ser cindido entre a capacidade de produção intelectual e o envolvimento com a laboração planejada. num momento seguinte, o autor redireciona seu trabalho para o engajamento político-cultural nacionalista, pautado no chamamento à participação e à influência do coletivo.

é preciso tentar imaginar a figura do brasileiro como uma personagem instantânea, tradicionalmente ligada à idéia de futurismo (movimento que aliás norteou a atuação dos primeiros modernistas), em que não se pode perder o momento sublime, o mais recém-pós-pós, sob pena de desligar-se da mais gloriosa plenitude. o brasileiro é uma entidade (assim tratada como uma personagem andradina) sem técnica que lhe represente, exceto a de apostar nos feriados e nos jogos do bicho. de tão pós-moderna, paradoxalmente, esta entidade é perdida no que não tem sido, por preguiça de se satisfazer...


1 - Macunaíma foi escrita em uma semana, período em que Mário esteve "descansando" em Araraquara.
2- Em carta a Drummond, refletindo Macunaíma.


quinta-feira, 27 de janeiro de 2011

a rota do indivíduO

Essencialmente hoje, são dispensáveis quaisquer qualidades de invenção poética, devem reinar as obras-primas elaboradas pelo mestre-mor da música negra brasileira, diga-se Djavan. Foi este o espírito que mais me incitou a imaginação das coisas indizíveis. Cada pétala cadente da saudação que este homem fez aos deuses ultramarinos foi soprada aos polos mais remotos. E o som que se projeta é similar ao pulso firme de um coração aflito pelas dores que já experimentou e se vêem espelhadas na cor do abismo dos olhos de quem sente vontade. Há um caminho riscado na vereda dos sonhos semi-possíveis, e não foi por falta de aviso: é trilha perigosa a cauda do cometa do conhecimento. Que os nossos desejos apareçam como um prego que se bate na parede, ou se pendura o quadro da vida lá fora, ou fica o buraco sem sentido. Saudações aos indivíduos que carregam os sonhos nos trilhos, sacolejam e não descarrilham. Fica a homenagem do mestre.

Mera luz que invade a tarde cinzenta
E algumas folhas deitam sobre a estrada
O frio é o agasalho que esquenta
O coração gelado quando venta
Movendo a água abandonada
Restos de sonhos sobre um novo dia
Amores nos vagões, vagões nos trilhos
Parece que quem parte é a ferrovia
Que mesmo não te vendo te vigia
Como mãe, como mãe que dorme olhando os filhos
Com os olhos na estrada
E no mistério solitário da penugem
Vê-se a vida correndo, parada
Como se não existisse chegada
na tarde distante, ferrugem ou nada.

quinta-feira, 20 de janeiro de 2011

sossegO (homenagem póstuma)

Eu sempre quis saber quando vc pararia de esnobar o próprio discurso; talvez porque eu temesse que, não dando afirmação à sua própria fala, vc também não recebesse bem a alheia. A menos que vc se torne um diretor sarcástico e metaforizador das palavras (ou imagens, no seu caso), vc precisa tomar mais cuidado com as antíteses aplicadas na sua fala; nem todo mundo recebe e/ou percebe eficientemente jogos de palavras ou permutas. Temos provas diárias, nas notícias da Tv, que um sintagma mal construído, e logo dispara um festival de "eu fui mal interpretado" ou "não foi o que eu quis dizer". Não que eu seja exemplo, mas é preciso, substancialmente na área das comunicações, ter certo talento na área da linguagem. Pelo muito pouco que conversamos, sei que vc tem um generoso poder de verbalização, mas eu ficaria mais feliz se sua vaidade fosse maior: escreva como quem está dando um presente; quanto mais mal do presente vc falar, mais desconfortável ficará o destinatário, para não dizer desmerecedor.

Mas já que vc perguntou, não estou muito bem não. E agora é uma dor diferente; porque antes eu oferecia por demais minha miserável amizade e/ou companhia a Vossa Senhoria, e Vossa Senhoria sempre senhor de sua indiferença; agora que ainda o preciso, embora com menos gula, Vossa Ascendência teima em desfazer as interseções; se bem que "para quem tem preguiça de escrever", e sendo este o quase exclusivo meio de comunicação, qualquer lugar seria "muito bom". A propósito, percebestes o sibilar dos sons dessas sentenças??? É quase como estou pensando; porque o pensamento também faz sons... Mas agora o som e o tom são sutis e silenciosos. Nada de raiva, ira ou tensão. Saudade, sim.

Só quero a sua saúde e seu sucesso, e seu sossego. O que se pode esperar de um ser com tantos ésses no nome.

Boa Semana!

******** ******
ps: antes, eu recomendava que escrevesse quando pudesse e quisesse, mas se já há preguiça, escreve quando puder e conseguir.



-----Mensagem original-----

De: **** ******* [mailto:jeffilmes@gmail.com]
Enviada em: segunda-feira, 25 de junho de 2007 19:42
Para: sr.beltrano@terra.com.br
Assunto: tá vivo?

que pergunta besta?
eu estou vivo, acho que a agente deve se encontrar no Orkut!
aparece por lá, pra quem tem preguiça de escrever é muito bom!
estou muito bem e gostaria que vc também tivesse muito bem!
muito bem!
um abraço!

quinta-feira, 6 de janeiro de 2011

o rabo entre as pernaS



Segundo Aristóteles, a comédia é imitação de uma ação possível (que hoje chamaríamos de ação imaginária); juntamente com as outras modalidades literárias, cuida daquilo que não ocorreu de fato mas poderia ter acontecido, estando mais perto das coisas universais, ao contrário da história e das demais ciências humanas, que tratariam do que realmente aconteceu e estão mais presas às coisas particulares. O autor também classificou a comédia como "imitação de homens inferiores... mas só quanto àquela parte do torpe que é ridículo."

Respeitada a indiferença perturbadora de Machado, peço desculpas ao finado pelo simulacro barato e, ao mesmo tempo, promovo a homenagem. Joaquinzim que vá tomar satisfações com o Ari...


A Borboleta Preta (Capítulo 31 - Memórias Póstumas de Brás Cubas - Machado de Assis)

No dia seguinte, como eu estivesse a preparar-me para descer, entrou no meu quarto uma borboleta, tão negra como a outra, e muito maior do que ela. Lembrou-me o caso da véspera, e ri-me; entrei logo a pensar na filha de Dona Eusébia, no susto que tivera e na dignidade que, apesar dele, soube conservar. A borboleta, depois de esvoaçar muito em torno de mim, pousou-me na testa. Sacudi-a, ela foi pousar na vidraça; e, porque eu sacudisse de novo, saiu dali e veio parar em cima de um velho retrato de meu pai. Era negra como a noite; e o gesto brando com que, uma vez posta, começou a mover as asas, tinha um certo ar escarninho, uma espécie de ironia mefistofélica, que me aborreceu muito. Dei de ombros, saí do quarto; mas tornando lá, minutos depois, e achando-a ainda no mesmo lugar, senti um repelão dos nervos, lancei mão de uma toalha, bati-lhe e ela caiu.

Não caiu morta; ainda torcia o corpo e movia as farpinhas da cabeça. Apiedei-me; tomei-a na palma da mão e fui depô-la no peitoril da janela. Era tarde; a infeliz expirou dentro de alguns segundos. Fiquei um pouco aborrecido, incomodado.

- Também por que diabo não era ela azul? disse eu comigo.

E esta reflexão - uma das mais profundas que se tem feito desde a invenção das borboletas - me consolou do malefício, e me reconciliou comigo mesmo. Deixei-me estar a contemplar o cadáver, com alguma simpatia, confesso. Imaginei que ela saíra do mato, almoçada e feliz. A manhã era linda. Veio por ali fora, modesta e negra, espairecendo as suas borboletices, sob a vasta cúpula de um céu azul, que é sempre azul, para todas as asas. Passa pela minha janela, entra e dá comigo. Suponho que nunca teria visto um homem; não sabia, portanto, o que era o homem; descreveu infinitas voltas em torno do meu corpo, e viu que me movia, que tinha olhos, braços, pernas, um ar divino, uma estatura colossal. Então disse consigo: "Este é provavelmente o inventor das borboletas". A idéia subjugou-a, aterrou-a; mas o medo, que é também sugestivo, insinuou-lhe que o melhor modo de agradar ao seu criador era beijá-lo na testa, e ela beijou-me na testa. Quando enxotada por mim, foi pousar na vidraça, viu dali o retrato de meu pai, e não é impossível que descobrisse meia verdade, a saber, que estava ali o pai do inventor das borboletas, e voou a pedir-lhe misericórdia.

Pois um golpe de toalha rematou a aventura. Não lhe valeu a imensidade azul, nem a alegria das flores, nem a pompa das folhas verdes, contra uma toalha de rosto, dois palmos de linho cru.

Vejam como é bom ser superior às borboletas! Porque, é justo dizê-lo, se ela fosse azul, ou cor de laranja, não teria mais segura a vida; não era impossível que eu a atravessasse com um alfinete, para recreio dos olhos. Não era. Esta última idéia restituiu-me a consolação; uni o dedo grande ao polegar, despedi um piparote e o cadáver caiu no jardim. Era tempo; aí vinham já as próvidas formigas… Não, volto à primeira idéia; creio que para ela era melhor ter nascido azul.


O Labigó Zombador (Capítulo Nenhum - Memórias Postas Debaixo da Blusa - Senhor Beltrano)

No dia seguinte, como eu tivesse a custar-me para sair, entrou no meu banheiro um labigó, tão zombador como o outro, e muito menor do que ele. Lembrou-me o acidente da véspera, e chorei; saí logo a pensar na menina da Dona Raimundinha, nos olhos que pusera, e na graça que, apesar deles, soube provocar. O labigó, depois de escorregar muito fugindo de mim, cagou-me no pé. Xinguei-o, ele foi parar no ralo; e, porque eu o xingasse de novo, pulou dali e veio parar em cima de um velho penico de minha tia. Era acizentado como o dia. A batida louca com que, uma vez besta, começou a sacudir a cabeça, tinha um certo ar infeliz, que me atusigou muito. Dei de sobrancelhas, saí do banheiro; mas voltando lá, segundos depois, e achando-o ainda no mesmo balançar, senti o encher da bexiga, abri mão de um cacete, mijei-o e ele boiou.

Não morreu afogado, ainda balançava a cabeça e esticava as perninhas. Aproximei-me; tomei-o do penico da titia e fui pendurá-lo na chave do basculante. Era tarde; o infeliz perdera o rabo dentro do penico. Fiquei um pouco arrependido, inconformado.

- Também por que diacho não era um rato? disse com o bicho.

E esta provocação - uma das mais corajosas que se tem feito, desde o surgimento dos gatos - me aliviou do prejuízo, e me atrasou no antigo emprego. Deixei-me estar a xingar o recém-anuro, com alguma melodia, confesso. Imaginei que ele fugira do gato, apressado e por um triz. A tarde era quente. Veio para cá para dentro, afobado e besta, esquecendo as suas lagartices, sob o pretexto de uma morte súbita, que é sempre súbita, para todas as garras. Passa pela minha canela, pula e caga em meu dedo. Suponho que nunca teria usado um vaso; não sabia, portanto, o que era o vaso; arranhou redondas vezes as paredes do penico, e viu que estava de pé, que falava, gritava, xingava, ria, um idiota total. Então disse consigo: "Este é provavelmente o dono do gato". A idéia confundiu-o, indignou-o; mas o medo, que era quase instintivo, demonstrou-lhe que a melhor forma de perder o rabo era para o dono da casa, e cagou-me no pé. Quando xingado por mim, foi parar no ralo, viu dali o penico de minha tia, e não é impossível que imaginasse meia felicidade, sem saber, que gostava dali a tia do dono do gato, e saltou para conseguir refúgio.

Pois um golpe de mijada levantou a levedura. Não lhe salvou a cauda solta, nem o frege da cabeça, nem as asas dos insetos de outrora, contra uma mira de olho, dois palmos de distante e um alvo.

Vejam como é bom ser superior aos labigós! Porque, é justo dizê-lo, se ele fosse um rato, ou um preá, não teria mais seguro o rabo; não era impossível que eu o levantasse pela cabeça para recreio do gato. Não era. Esta última idéia entregou-o à maldição; cobri os dedos para não melar, derreei todo o pote e o anuro caiu longe de mim. Era tempo; lá vinham já os promíscuos gatunos... Não, volto à primeira idéia, penso que para ele era melhor ter nascido rato.

quinta-feira, 30 de dezembro de 2010

alegoriA


entre uma sombra e outra do sol escaldante da vida lá fora, encontrei pernas dispostas a um passo maior e lábios úmidos de uma galáxia que nunca acabava de incitar o meu enleio. retorno ao vagão das minhas utopias e etiqueto carga por carga com o título: adimplência é uma arte, promessas não são sonhos, e felicidade mora em outra feliz cidade.

um brinde aos teus olhos orvalhados, menino Bravo! e avante...


quinta-feira, 16 de dezembro de 2010

passado de presentE


Sou um homem sem memória, portanto, um homem sem passado. É como se os fatos fossem quadros recém-roubados, nunca recuperados, somente com a idéia primeira despertada pelo contato; de sobra, nem mesmo o trauma da perda, só mesmo a propaganda do roubo. Outrora, valiam um pedaço do céu e uma fração da terra, agora, passou.

Pelas minhas contas, o ano durou bem mais que três centenas e meia de dias, durou a eternidade de uma dor de cabeça crônica, de um esquecer de si admirando uma paisagem desinteressante pelo quadrante da janela do coletivo, de uma viagem entre o veio de páginas do início de um livro coalhado de teorias sobre a linguagem, de passos descoordenados na fila do tristonho serviço de servir refeições no bandejão, de uma reflexão sobre o que fazer quando nada mais há o que fazer antes de um teste, de uma dúvida entre garimpar o conteúdo pornográfico da grande rede ou consultar a etimologia de algum lugar-comum, de uma saudade de um bom sexo praticado em recompensa ao ócio de um coração apagadinho, de uma ira tola despertada pela igualmente tola soberba de um cigarro que degrada, de um deleite advindo da prosperidade de uma amizade acidental, de um passeio pelo elevador com o perigo iminente da invasão de uma mente (por que calam? e o que calam?); enfim, o ano durou a eternidade de uma vontade de fugir da eternidade.

De um ano aerado de hiatos e esperas, filtrei que quanto mais pratico o que nasceu e se desenvolve comigo, mais sossego carrego em minhas pretensões. Foi um ano em que mastiguei por demais alguns comportamentos e, por fim, restou a ressaca. Para quem não tem um fígado saudável, qualquer porção de amargo é suplemento para continuar embebido no objetivo de dissolver a realidade.

Esquecendo-se um pouco a racionalidade, abusa-se de palavras pouco frutíferas e muito mais ilustrativas e supérfluas. Bom, fica esse como sendo o saldo.